Não importa a forma como se deu o rompimento, seja adequada, sem razão para remorsos ou ressentimentos, seja via ato violento, o rompimento sempre será sentido como uma perda. Quanto mais fortes estivermos relacionados ao objeto, mais forte será o sentimento da perda.
Estou cada vez mais convencido que só nos entendemos via nossas relações com os objetos, reais, de desejos ou de sonho, atuais, do passado ou do futuro. Do óvulo fecundado que fomos, do embrião conectado ao corpo, do recém-nascido dependente da mãe, da criança com seu universo social, ao velho que se liga ao que fez e ao que não fez, mas também ao que faz e ao que fará. Nossa conversa com o nosso corpo, com os objetos da mente, com a natureza. As conexões em casa, no trabalho, na rua, na sociedade, com o outro, seja carinhosa ou não, nos constrói seres essencialmente relacionais. Somos feitos de relacionamentos. Nossa matéria básica é relacional, seja física ou não.
A quebra de um relacionamento nos faz momentaneamente incompletos. Muito mais do que carentes, perdemos algo, mais ou menos importante do que fomos: uma perna, um olho, uma pessoa que queremos e nos fez importantes: aleijamo-nos! E, até desesperadamente, buscamos reconstituir a relação perdida. Buscamos ser o que fomos.
Romper um relacionamento exige a disposição para entender-se menos do que se era, ainda que o objeto do relacionamento nos fosse nocivo. Ficar sem o álcool, sem o cigarro, sem a cocaína, sem uma pessoa que nos faz mal, ainda assim, nos faz sentir menos do que éramos, nos faz sentir perdedores. E essa imagem, essa dor, ultrapassada a crise, transforma-se em sensação de ganho, de vitória. A vitória da sobrevivência, o ganho de se perceber um novo ser.
Romper um relacionamento é também um ato de limpeza. Retira das costas cargas que carregamos vida afora. Deixa a vida mais leve.
Um rompimento de relacionamento é uma morte de uma relação. É a morte em nossa vida dos objetos da relação, do significado que um dia eles tiveram. Aceitar a morte dos objetos em nossa vida nos leva a um mundo sem eles. Um mundo diferente. Um novo mundo. Amém!
Por que o rompimento do relacionamento dói?
Porque é uma perda da integridade do ser, que pode ser entendido como formado por relações. A pessoa que forma a relação deixa de existir. Não pode mais ser acessada. Não se ouve dela qualquer manifestação, nem um elogio, nem uma reclamação. A pessoa que forma a relação, assim como a própria relação, morre. Pelo menos nas vidas dos que participavam da relação.
Porque, caso se sinta causador do rompimento, caso sinta que sua ação ou a sua omissão foi a causa do rompimento, sente-se culpado. E o sentimento de culpa, de ter sido o causador da perda do objeto precioso, gera a angustia do remorso pelo comportamento que entende ter sido inadequado e a ansiedade pelo perdão que sente restaurador de sua saúde. Procura, até desesperadamente, aliviar-se. Esquece que a quebra da relação não é um ato de um único autor, mas, no mínimo, de dois. E de que ninguém é culpado isoladamente pelo rompimento de uma relação.
Porque o sofredor não entende que, custe o que tenha custado, ou o que venha a custar, o rompimento da relação com o objeto, a médio e longo prazo, enseja uma nova vida, liberada talvez de um fardo, de um dreno dissipador de energia, de uma hemorragia causadora de anemia, de um câncer que corroía.